HISTORIAS DE MULHERES

Antônia Mendes de Matos (Toinha)

“Um dia vou voar alto nesse avião e conhecer o mundo” Antônia Mendes de Matos (conhecida como Toinha), Diretora do Movimento da Mulher Trabalhadora Rural – NE, do município de Aporá, Bahia – Brasil

Mesmo sem saber que um dia iria entrar para o movimento de mulheres, mudar sua vida e de muitas outras. Toinha já previa que iria conseguir realizar seus sonhos. Um certo dia, ao avistar um avião no alto do céu, entre as folhagens do campo, disse: “Um dia vou voar alto nesse avião e conhecer o mundo”. Hoje ela já viajou para vários estados do Brasil, inclusive foi uma das mulheres populares e diversas que conheceu o Peru e agora vai à Colômbia.

O movimento entrou na sua vida para superar uma depressão em 1998, causada por uma doença. A agricultora passava seus dias cuidando da casa, do filho e do marido, sem dinheiro para comprar as coisas e dependendo do companheiro, decidiu mudar a sua realidade. Um certo dia foi até a reunião do Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Aporá e Tamira, para conseguir um documento de aposentadoria para seu pai. Essa foi a chance que ela esperava, logo se filiou ao sindicato. “Comecei a acompanhar as reuniões e seis meses depois fui vice-secretária. Nessa época havia uma única mulher, comigo eram duas. Já na segunda eleição fui Presidente. E a partir daí não parei, passei a participar do movimento de mulheres.”, relatou.

Em 1999 foi convidada para ser diretora do MMTR-NE, e já está em seu segundo mandato. ”O MMTR mudou minha vida, me comuniquei com muitas mulheres, fiz articulação, levei as mulheres para participar em Brasília da Marcha das Margaridas.”, disse. Toinha também faz parte do Grupo de Trabalho da Terra, do Campo e da Floresta, que discute sobre o respeito à natureza, e defende a agroecologia.

Hoje as agricultoras ainda enfrentam vários desafios para sair do espaço privado. “Para conseguir hoje estar aqui, eu lembro que disse ao meu companheiro antes de casar: quando a gente se casar eu vou poder ir para onde eu quiser, e você também, sempre respeitando um ao outro. Mesmo assim, ainda por muitas vezes preciso conversar e dialogar sobre a importância de estar nesses espaços”, falou.

A educação é outro desafio para as mulheres rurais, para Toinha é uma vitória conseguir terminar os estudos, hoje ela orienta outras mulheres a estudarem. “Quando fui estudar, meu marido dizia: Isso é coisa de menina moleque e não pra você! A minha mãe dizia: Mulher casada não pode! Os vizinhos diziam: Mulher que começa a estudar a noite, marido tem que ter cuidado! Isso para mim é violência e discriminação, e disse ao meu marido que não iria baixar a cabeça, e continuaria a estudar.”, disse.

No espaço público também enfrentou alguns obstáculos. Toinha conta de uma ocasião em que tentava organizar as mulheres no Sindicato, e que precisou dialogar com os homens para continuar o seu objetivo que era tornar as mulheres diretoras. ”Eu acreditava que as mulheres trabalhadoras rurais tinham o direito de pedir contribuições para se organizarem, porque tinham muitas mulheres sócias, era a maioria e não tinha diretoras. Hoje temos oito mulheres na direção.”, relatou.

A comunicação é ainda um desafio para a zona rural, praticamente o único meio de comunicação é a televisão. Os programas não informam as mulheres de seus direitos, e quem acaba cumprindo esse papel são os Sindicatos e os Movimentos. “Cidadania para mim é direito à educação, saúde, lazer, liberdade, passear, comer, vestir, dormir, conversar, uma série de coisas boas. É ter acesso à informação, ter direito a documento, é ser independente. Eu via mulheres acumuladas nas casas dos pais, das sogras com seus filhos, sem direitos. Principalmente ao salário maternidade, muitas pessoas chegaram a duvidar que existia esse benefício. Era visível que muitas mulheres não tinham condições de trabalhar na roça, e a partir dessa articulação foram várias que conseguiram esse beneficio, cheguei até a dormir nos hospitais para conseguir os documentos. E continuo falando na comunidade dos direitos, principalmente de se assumir como lavradora, como agricultora nos documentos”, relata.

Na Bahia, o MMTR-NE faz campanhas de documentação, pois são muitas que ainda não tem documentos, e não consegue o direito a aposentadoria. Emprego e salário digno ainda é uma realidade distante das jovens na Bahia. A violência também é um dos problemas sociais que as mulheres enfrentam todos os dias, a falta de médicos nos postos de saúde, a violência por parte dos companheiros, como conta Toinha: “A discriminação também fere a alma. Olha pra mim porque sou baixinha, não me vê bem vestida. Teve uma vez quando eu estava no sindicato, uma pessoa chegou para falar com a presidente e passou por mim em direção de quem estava bem vestida, sem saber que eu poderia ser a presidente, e isso me deixava triste pois não tinha condições de vestir bem e estar no salto. Uma vez que somos maltratadas, sofremos violência.”, disse.

Toinha é militante e já foi diretora do MMTR-NE, representando a Bahia, e também fez parte do Conselho de Saúde, Conselho de Assistência Social e da Pastoral da Criança do município de Aporá, na Bahia

Texto de Emanuela Castro que também pode ser lido aqui.